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Fernando Brito: “Omissão criminosa da Chevron-Texaco, com indulgência da nossa imprensa” | Viomundo – O que você não vê na mídia

Fernando Brito: “Omissão criminosa da Chevron-Texaco, com indulgência da nossa imprensa” | Viomundo – O que você não vê na mídia.

Fernando Brito: “Omissão criminosa da Chevron-Texaco, com indulgência da nossa imprensa”

por Conceição Lemes

No dia 10 de novembro, quinta-feira, a Agência Estado publicou esta nota:

“A unidade brasileira da petroleira norte-americana Chevron-Texaco informou que está trabalhando para conter um vazamento no campo Frade, na Bacia de Campos. “O vazamento se deve a uma rachadura no solo do oceano. É um fenômeno natural”, disse Heloisa Marcondes, porta-voz da Chevron-Texaco Brasil.

O campo de Frade, operado pela petroleira estadunidense Chevron-Texaco, fica a 350 km do Rio de Janeiro. O acidente, sabe-se agora,  aconteceu na segunda-feira, 7 de novembro. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) tomou conhecimento no dia 9, mas só o tornou público no dia 10. O primeiro alerta público foi dado pelo Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro) ainda na quarta-feira, 9.

Nos dias 11, 12, 13, 14 e 15, a mídia se limitou a reproduzir as notas oficiais da Chevron-Texaco e da Agência Nacional de Petróleo (ANP). E, ainda assim, em matérias pequenas, em pé de página, escondidas. Nenhuma cobrança maior. Aliás, nenhum grande veículo se empenhou para saber o tamanho e a causa do vazamento.

O jornalista Fernando Brito, do blog Tijolaço, do deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ), não engoliu a versão da empresa e desde o dia 11 começou, solitariamente, a questioná-la. De lá até hoje foram 12 artigos, denunciando o desastre ambiental e os comportamentos da mídia e da Chevron-Texaco.

“Desde o princípio, achei algumas coisas estranhas, a começar pelo fato de que não houve um tratamento escandaloso do assunto pela mídia, como certamente haveria se o campo em questão fosse operado pela Petrobras”, ironiza Fernando Brito.  “Ah, se fosse a Petrobras, já no dia 11, até os peixes do oceano estariam dando declarações contra a empresa.”

“Além disso, a Chevron-Texaco demorou pelo menos 24 horas  a admitir o problema e, quando o fez, foi por uma nota marota, dizendo que se tinha detectado o vazamento ‘entre o campo de Frade e o de Roncador – que é operado pela Petrobras”, prossegue Brito. “Na verdade, o problema se deu bem próximo de uma de suas plataformas de perfuração, a Sedco706, da Transocean, a mesma proprietária da Deepwater Horizon, que provocou o acidente no Golfo do México.”

No dia 15, a Polícia Federal entrou no caso e a expectativa era de que a mídia não varreria mais para debaixo do tapete o óleo derramado. Realmente, não deu mais para a grande imprensa ignorar. Porém, não foi a fundo nas circunstâncias que o causaram, apesar de ter todas as condições e facilidades para fazê-lo.

A Sedco 706, plataforma de perfuração da mesma empresa do acidente do Golfo, nas proximidades da qual ocorreu o acidente da Chevron

O Tijolaço “furou” toda a imprensa. Foi quem primeiro duvidou da história contada pela Chevron-Texaco de que o derramamento de petróleo no mar era “fenômeno natural” e se devia a uma falha geológica. Foi também quem, com base nos cálculos feitos pelo  geógrafo John Amos, do site SkyTruth, especializado em interpretação de foto de satélites com fins ambientais, alertou que o vazamento de petróleo no Campo de Frade era muito maior do que a Chevron-Texaco afirmava. Foi ainda quem, ainda no dia 11 de novembro, levantou possibilidade de a empresa pretender fazer uma prospecção na camada do pré-sal , pelo fato de haver um pedido de perfuração até 5.200 metros, quando as ocorrências de petróleo em Frade se situam na faixa dos 2,5 mil metros abaixo do leito marinho.

Por isso, o Tijolaço começou a pedir que se apreendessem os diários de perfuração e os relatórios de cimentação, que mostram os locais e  a qualidade da vedação que se faz pelo lado externo da coluna de tubos do poço.

“É como um canudo (desses de doce) que você coloca numa tijela cheia de doce de leite molinho. Quando pressiona, o líquido sobe pelo canudo, mas também vaza pelo lado de fora dele. A cimentação, além de dar firmeza à coluna de tubos, faz essa vedação, de baixo para cima”, traduz Brito.  “Mas é um procedimento caro e toma tempo. Tempo, quando você tem uma sonda que custa centenas de milhares de dólares de aluguel diário, é dinheiro, e muito dinheiro. Lá no Golfo do México, a BP [British Petroleum], por economia, ‘pulou’ a verificação de uma dessas cimentações.”

Na última sexta-feira à noite, ficou comprovado que Brito estava correto desde o começo, apesar de estar falando sozinho. O presidente da Chevron-Texaco no Brasil, Charles Buck, revelou ao portal Energia Hoje que a empresa foi culpada pelo vazamento, por não aplicar técnicas adequadas de cimentação do revestimento da coluna de perfuração:

“O presidente da Chevron-Texaco no Brasil, George Buck, afirmou nesta sexta-feira (18/11) que a petroleira foi responsável pelo acidente que provocou o vazamento de óleo na última semana no campo de Frade, na Bacia de Campos. Segundo o executivo, a companhia subestimou a pressão do reservatório, provocando o acidente.

“É nossa culpa. Nós subestimamos a pressão do reservatório”, afirmou Buck. “O problema é que a pressão na formação foi maior do que a lama de perfuração poderia suportar. A modelagem do reservatório nos deu a informação incorreta sobre a pressão”.

“Um dia depois, a Petrobras informou à Chevron-Texaco que havia identificado uma mancha, confirmada na noite seguinte pela companhia norte-americana. A petroleira levou três dias para identificar o vazamento abaixo do revestimento e, no dia 13, fechar o poço com lama de perfuração de alta densidade. No dia 14, começou a cimentação”.

“A Chevron-Texaco cometeu erros técnicos básicos, conduzindo a perfuração por uma extensão grande demais antes de nova cimentação. A razão principal desse erro é a redução de prazos e custos da operação”, denunciou Brito, nesse sábado no Tijolaço. “Mas o erro mais grave, imperdoável, é que a Chevron-Texaco sabia a razão do vazamento desde o dia em que foram avistadas as manchas de óleo. Se é que não sabia antes, porque as manchas foram avistadas pelo pessoal da Petrobras e, aí, não dava mais para ter segredo.”

Em bom português: a grande imprensa “papou mosca”, de novo, num assunto de imensa gravidade. E a blogosfera, graças ao trabalho bem-feito de Fernando Brito, colocou a Chevron-Texaco no mapa da mídia brasileira. Leia a seguir a nossa entrevista.

Viomundo – Enquanto a mídia se limitava a reproduzir os releases da Chevron-Texaco e da ANP [Agência Nacional de Petróleo], você desde o início denunciou que a história do vazamento do poço da Chevron-Texaco estava mal-contada. Alguma fonte o alertou para essa possibilidade? O que o levou, sozinho, ir contra a maré midiática?

Fernando Brito – Não tinha fonte privilegiada tampouco uma “gravação” caiu no meu colo (risos). O que eu fiz foi jornalismo. Apenas isso. Sou do tempo em que o jornalista não era a notícia, ele buscava a notícia, diferentemente do que acontece hoje, muitas vezes. Na hora em que li a nota da Agência Estado, pensei: Fenda natural? De três mil metros de profundidade? Isso é coisa de filme de ficção. E como é que isso não apareceu nos estudos sísmicos e  ecossonográficos?

Já estava escrevendo, quando veio a notícia que a presidenta Dilma tinha mandado investigar. Pensei: aí tem, a presidenta não ia botar polícia com um derrame de “um baldinho” de óleo. Era o óbvio.

Mas não tinha ainda maiores informações. Então, registrei essa estranheza  e fiquei, essencialmente focado no tratamento mais do que discreto do assunto pela mídia. Porque, se o campo fosse operado pela Petrobras, já no primeiro dia, até os peixes do oceano estariam dando declarações contra e empresa. Aliás,  mesmo com o vazamento da Chevron-Texaco, o destaque nos jornais do dia 11 foi para a queda de 26% no lucro da Petrobras, mesmo sabendo que essa queda é essencialmente contábil, pela desvalorização cambial ocorrida desde agosto e que não se repetirá no último trimestre, dando à empresa um lucro recorde em sua história.

Como eu tinha muitas perguntas para as quais eu não tinha respostas, comecei a pesquisar no Google. Hoje em dia grande parte dos documentos vai parar na internet. Se os colegas souberem fazer as perguntas certas, vão descobrir muita coisa, muita mesmo.

Viomundo – Estranhou mais alguma coisa?

Fernando Brito – Várias. Primeira: a Chevron-Texaco  demorou pelo menos 24 horas para admitir o problema e, quando o fez, foi por uma nota marota, dizendo que havia sido detectado vazamento “entre o campo de Frade e o de Roncador – que é operado pela Petrobras –  quando, na verdade, ele se deu bem próximo de uma de suas plataformas de perfuração, a Sedco706, da  Transocean, a mesma proprietária da Deepwater Horizon, que provocou o acidente no Golfo do México.

Segunda: a história de que falha geológica seria a causa.  É improvável que falhas geológicas capazes de provocar um derramamento no mar não tivessem sido detectadas nos estudos sísmicos que precedem a perfuração.

Terceira: mesmo depois de a presidenta Dilma Rousseff ter determinado em 11 de novembro a investigação rigorosa do caso, a nossa imprensa, tão zelosa e meticulosa quando se trata da Petrobras, continuou a dar quase nenhuma importância ao caso da Chevron-Texaco, uma multinacional com boas relações com o senhor José Serra. Segundo o Wikileaks, lembra-se?, Serra havia prometido à senhora Patrícia Pradal, diretora de relações de governo da Chevron-Texaco, que iria rever a legislação brasileira do pré-sal.

Conversei sobre isso com o Brizola Neto e a gente decidiu mergulhar na história, com todos os riscos que isso trazia, porque nossos conhecimentos são, evidentemente, limitados.

Viomundo – E como descobriu que a plataforma Sedco 706, alugada pela Chevron-Texaco-Texaco para o Campo de Frade, foi usada como “hotel marinho” para outra plataforma no Mar do Norte, em 1999?

Fernando Brito –  É o  Wall Street Journal que o diz, numa matéria, de 2008.  Lá fiquei sabendo que a plataforma Sedco 706, que opera na área do acidente em Frade, tem hoje 35 anos de idade e que o equipamento “não era adequado para modernas perfurações em águas profundas. E não deveria ser utilizado mais para perfuração. Ela estava atracada no Mar do Norte, ligada a outro equipamento por uma passarela. Foi um quarto de dormir flutuante para os trabalhadores do petróleo, uma espécie de motel marinho”. Depois, sofreu um upgrade, que  a gente não sabe quanto teve de “guaribada”, porque o custo do aluguel dela – segundo o WSJ – ficou em 50% do que custa uma sonda de igual capacidade no mercado internacional.

Viomundo – Ontem, sábado, 19 de novembro, começou a circular a informação de que a Polícia Federal está  investigando se a Chevron-Texaco tentou atingir pré-sal, ao perfurar poço que vazou. Você, já no dia 11, levantou essa suspeita. Por quê?

Fernando Brito — No Campo de Frade, um dos mais produtivos do Brasil, todas as ocorrências de petróleo estão  numa faixa – que os técnicos chamam de “play” — inferior a três mil metros.  Por que a Chevron-Texaco contratou uma sonda para perfurar até 7.600 metros de profundidade –  que é, em tese, mais cara – senão para chegar ao  pré-sal?

O registro de profundidade na ANP sugere que a empresa pretendia  prospectar a camada do pré-sal. E fica a pergunta se a Chevron-Texaco tinha ali estudos e equipamentos adequados para perfurar o pré-sal, como provavelmente pretendia fazer? Se isso tem ou não relação com o acidente é outra história. Não necessariamente tem. Mas é fácil de saber, com o diário de perfuração. É só ver o diâmetro do furo para saber o quão longe pretendiam ir.

Viomundo – Durante quantos dias a mídia praticamente ignorou o acidente no poço da Chevron-Texaco?

Fernando Brito – Cinco dias, 11 a 15 de novembro, quando então a Polícia Federal passou a investigar, aí não dava mais para esconder o óleo derramado embaixo do tapete.  Nesses dias, ou o assunto era ignorado pela mídia ou se reproduzia os press- releases da companhia.

“Chevron  mobiliza equipe global para conter vazamento”. Esse foi o título da matéria do Estadão no dia 13, reproduzida pela Exame (Abril), enquanto o G1, do grupo Globo, destacou: Frota de 17 navios tenta controlar mancha após vazamento no RJ

Ou seja, saiu o Prêmio Esso de Jornalismo, entrou o “Prêmio Chevron-Texaco” de cópia de press-releases. A falta de empenho da imprensa brasileira na apuração do acidente nos primeiros cinco dias foi um acinte ao jornalismo e ao interesse público.

Aliás, na primeira semana após o vazamento não havia uma ONG, um ambientalista, ninguém protestando, ninguém – além da presidenta Dilma – exigindo apuração completa do acidente.

Viomundo – Alguém da Chevron-Texaco falou sobre o acidente?

Fernando BritoNo primeiro dia, 10 de novembro, falou apenas Heloisa Marcondes, assessora de imprensa da Chevron-Texaco, e ainda falou besteira, dizendo que o vazamento era um “fenômeno natural”. Existir uma fenda marinha, em plena plataforma continental, capaz de, por si só, alcançar a profundidade de um depósito petrolífero não é natural, é , quando muito, sobrenatural.

Depois disso, somente nessa sexta-feira, nove dias após o problema vir a público, o presidente da Chevron-Texaco  no Brasil, senhor Charles Buck, subordinado ao senhor Ali Moshiri, presidente da empresa para a África e América Latina, deu uma entrevista coletiva. Até então, nenhum diretor da empresa havia dado entrevista. A empresa falou o tempo inteiro por meio de comunicados, reproduzidos fielmente pela mídia, sem qualquer aprofundamento ou dúvida.

O Energia Hoje, um site especializado registrou com todas as letras que  Buck disse ser culpa da empresa o vazamento. O resto da mídia omitiu esta declaração e falou apenas num erro de cálculo.

Como assim, erro de cálculo? Alguém não sabia tabuada? Reduzir os pontos de cimentação é parte do cálculo de custos. Isso tem que ficar bem claro e deveriam ter sido ouvidos os engenheiros de petróleo para saber se é normal apenas uma cimentação num poço que já tinha 2.300 metros. Não houve, entre os 567 metros da primeira cimentação, nenhuma parada para colocação de sapatas intermediárias, quando da redução de diâmetro do furo, momento em que se faz a parada para cimentação e, depois, a análise de sua adequação?

É o oráculo de Houston falando aos pobres tupiniquins, incapazes de formular uma única pergunta. Veja, só na entrevista de Buck, finalmente, soubemos a que profundidade estava o poço! Houve uma cumplicidade escandalosa entre a nossa imprensa e a multinacional estadunidense. Tanto que, em determinado momento, eu perguntei: será que vamos ter que esperar que coloquem uma mensagem na garrafa, para que a nossa imprensa publique algo além de notas oficiais? (risos)

Curioso é que os colegas tenham ido perguntar sobre o vazamento à Petrobras, sócia minoritária e sem poder operacional sobre o campo.

Viomundo – Como você chegou ao geógrafo John Amos, do site SkyTruth especializado em interpretação de foto de satélites com fins ambientais?

Fernando Brito – Na verdade, primeiro cheguei a estas duas fotos publicadas pelo  SkyTruth, que registram em dois momentos o que é identificado como sendo a mancha de óleo provocada pelo vazamento no poço da Chevron-Texaco. Cheguei até elas no dia 14 pela dica do leitor Henrique, que foi mais eficiente que toda a imprensa brasileira reunida.

Viomundo – E como chegou ao próprio John Amos? Como conseguiu que ele fizesse os cálculos sobre o tamanho do vazamento?

Fernando BritoO deputado Brizola Neto enviou para Amos, pelo twitter, as coordenadas dos poços constantes do relatório oficial da ANP sobre as perfurações em andamento e concluídas. Amos, um ativista ambiental que mantém o site há dez anos o site SkyTruth, trabalhou em cima delas e publicou esta imagem sobre a mancha causada pelo vazamento de petróleo do poço da Chevron-Texaco no Campo de Frade, ao largo do Rio de Janeiro.

Junto com essa imagem, Amos postou a seguinte conclusão:

“A  imagem de satélite  MODIS / Aqua da NASA, acima, foi tirada há três dias. Ela mostra uma mancha de óleo aparente originária do local de perfuração e que se estende por 2.379 quilômetros quadrados (o extremo sul da mancha fica aprisionado em um redemoinho no sentido horário interessante nas correntes oceânicas). De 1 micron de espessura, representa um volume de 628 mil galões (14.954 barris) de petróleo.

Supondo que o vazamento começou ao meio-dia em 8 de novembro (24 horas antes de termos observá-lo em imagens de satélite), estimamos uma taxa de vazamento de pelo menos 157 mil galões (3.738 barris) por dia. Isso é mais de 10 vezes maior do que a estimativa da Chevron-Texaco de 330 barris por dia”.

Viomundo – A foto e conclusão foram publicadas por Amos exatamente quando?

Fernando Brito – A foto foi tirada pelo satélite da Nasa em 12 de novembro, sábado, e publicada no dia 15 com a conclusão. No dia 15, por sinal, a ANP finalmente divulgou que uma reunião de emergência realizada no dia 13, domingo (por que só veio a público na terça?), aprovou-se o plano de emergência apresentado pela Chevron-Texaco para deter o vazamento e que a diretora da ANP, Magda Chambriard, esteve na Sala de Emergência da Chevron-Texaco acompanhando os trabalhos para conter o vazamento.

O site Skytruth provou que o vazamento não era de “umas gotinhas” inofensivas mas provocava uma mancha imensa. Portanto, a Chevrou mentiu inicialmente sobre a dimensão do vazamento de petróleo.  O Skytruth, vale lembrar, foi um dos primeiros a anunciar a dimensão do vazamento do Golfo do México em 2010.

Viomundo — Num dos artigos de 14 de novembro, você disse que a mesma plataforma Sedco 706 estava perfurando três poços simultaneamente no Campo de Frade. Como assim, três poços ao mesmo tempo?

Fernando Brito – É que a Chevron-Texaco, para fazer economia, está fazendo perfurações “de batelada”. Isto é, cava uma seção de um poço, tampa, cava a seção inicial de outro, faz o mesmo e vai para um terceiro, para voltar, na mesma sequência, para cada fase posterior de perfuração. Isso está registrado no Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela empresa e que o Ibama coloca na internet.

Não tenho condições técnicas de afirmar se isso agrega risco, porque o equipamento de perfuração é retirado e movido. O que eu posso dizer é que, nos mapas da ANP, não encontrei nenhuma outra petroleira que use este método. Também que até o momento a Chevron-Texaco não disse em qual dos três poços ocorreu o problema.

Viomundo – A Chevron-Texaco estava usando mesmo 17 embarcações para conter o vazamento?

Fernando Brito – Não, pelo que disse o delegado Fábio Scliar, da Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico da Polícia Federal. Em entrevista publicada pelo G1 em 16 de novembro, o delegado Scliar afirmou:

“(…)técnicos da PF estiveram na plataforma nesta quinta-feira (15) e encontraram divergências sobre o que foi informado pela Chevron-Texaco sobre o vazamento. Entre elas estão a quantidade de navios que recolhem o óleo no local (a empresa afirmou que são 17 e a PF encontrou apenas um, de acordo com o delegado), o tempo para a selagem do poço e o tamanho da mancha de óleo. “Eles disseram que a mancha vem diminuindo e ela vem aumentando”.

Ninguém perguntou à empresa quais eram os barcos. Se ela tivesse dito que eram 50, daria  no mesmo.

Viomundo – No dia 15, o vazamento do poço da Chevron-Texaco virou caso de polícia, passando a ser investigado pela Polícia Federal. E a mídia, como passou a agir?

Fernando Brito — Com a entrada da Polícia Federal no assunto, o escândalo do vazamento de petróleo começou a aparecer. E, com ele, as dimensões da mancha de vergonha que cobriu a grande imprensa brasileira.

Aliás, cada vez mais acontecem coisas estranhas neste caso do vazamento de petróleo no poço da Chevron-Texaco, no Campo de Frade. No dia 16, o Jornal Nacional da Rede Globo publicou uma extensa matéria sobre o assunto.

Ouviu o delegado Fabio Scliar, titular da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal, dizendo que investiga a possibilidade de que tenha havido erro na perfuração. Ouviu o geógrafo John Amos, da SkyTruth, que revelou – como havia antecipado três dias antes ao Tijolaço – que o vazamento podia ser dez vezes maior que o anunciado, e cobria uma área maior que o município do Rio de Janeiro.

Contava que a empresa responsável pela perfuração da Chevron-Texaco, a Transocean, era a mesma que perfurava o poço que causou o acidente no Golfo do México. A matéria terminava com um sobrevôo da área, em um avião da Chevron-Texaco, na companhia do diretor de meio-ambiente da empresa, que não quis gravar entrevista, mas disse ao repórter que a quantidade de óleo que vazava “era muito pequena”.

Estranhamente, porém, a matéria que foi colocada no site do Jornal Nacional foi cortada. Na verdade, decepada.Dos quatro minutos originais, ficaram dois .O delegado, o ambientalista, a foto de satélite com a mancha e a comparação com a área do Rio de Janeiro foram para o lixo.

Não dá para entender o que aconteceu. Não pode ser o tamanho do vídeo, porque a reportagem sobre o depoimento de Lupi [Carlos Lupi, ministro do Trabalho] teve quatro minutos e está lá, na íntegra.

Será que “alguém” se distraiu e só viu a matéria depois de ir ao ar? E aí, furioso, mandou cortar os hereges que ousaram colocar um delegado e um ambientalista dizendo que uma petroleira americana pode ter culpa no cartório por um grande desastre ambiental.

Por sorte, a gente estava gravando o JN com uma câmera manual, e postamos os dois  vídeos. O “decepado” e o trecho que eliminado do original.

Viomundo – Ontem, eu li no Tijolaço que o presidente da Chevron-Texaco no Brasil, Charles Buck, havia finalmente se manifestado, dando uma entrevista ao portal Energia Hoje. Ele disse que a empresa foi culpada pelo vazamento, por não aplicar técnicas adequadas de cimentação do revestimento da coluna de perfuração. O que aconteceu finalmente? Já se sabe que poço estava perfurando e a que profundidade?

Fernando Brito – Você leu no Tijolaço porque a imprensa continua derivando para assuntos laterais. Ontem, quis até reproduzir a imagem da home da Folha, para mostrar que essa notícia havia saído no “pé” da página. Era tão no pé, mas tão no pé que nem reduzindo a página ao mínimo e virando a tela do computador para  poder caputrar uma extensão maior dava para reproduzir.

O senhor Buck falou o que quis, sem ser perguntado de nada. Não explicou porque o imenso intervalo de cimentação. Não foi perguntado se os outros poços da Chevron-Texaco têm um intervalo tão grande de vedação. Não foi perguntado sobre se há outras perfurações da Chevron-Texaco na área, como registra a ANP.

Sobretudo, não foi perguntado sobre a razão, uma vez que houve o “kick” – que é uma elevação de pressão e a subida de óleo ou gás pela coluna de perfuração – no dia 7  de novembro, a empresa só tornou isso público na noite do dia 18. Aliás, no mesmo dia, a empresa soltou uma nota dizendo que “reitera que não houve vazamento na cabeça do poço”.

Claro, ali tem um sistema que impede vazamento do que vem pelo tubo. Do que vai por fora do tudo, é a cimentação que veda. A cimentação que ela sabia estar muito distante do ponto onde a cabeça da sonda perfurava. E isso tem uma básica razão: redução de prazos e custos da operação.

Mas, no meu entender, o erro mais grave, imperdoável, é o fato de que a Chevron-Texaco sabia a razão do vazamento – a narrativa do presidente da empresa mostra claramente isso –, desde o dia em que foram avistadas as manchas de óleo. Se é que não sabia antes, porque as manchas foram avistadas pelo pessoal da Petrobras e, aí, não dava mais para ter segredo.

Em outras palavras. Houve um erro técnico que deve ser avaliado pelos peritos. Mas há um crime indiscutível de omissão de informações – com a  indulgência da nossa mídia – crime que é imperdoável, porque evidencia má-fé.

Viomundo – O que mais te marcou nessa cobertura?

Fernando Brito – A dupla ética de nossa imprensa. E o seu despreparo, que somado à marotice política, desvia o assunto. O tema agora é o “despreparo” do país para a exploração de petróleo no mar. Isso é uma mentira deslavada, que se prova com um só argumento: temos mais de 30 anos de exploração marinha e nunca houve um grande acidente, apesar de termos milhares de poços perfurados. O acidente da Petrobras na Baía da Guanabara foi num duto, não num poço. Grave, gravíssimo, porque se deu em águas abrigadas e junto do litoral. Mas vazamento em duto tem limite, o limite do que o duto contém, depois de fechadas as válvulas. No leito oceânico o limite, em tese, pode ser o da jazida de petróleo inteira.

Falam que não existe plano de emergência nacional, mas que plano pode funcionar se a empresa que está lá esconde o vazamento? Se os técnicos da Petrobras não tivessem visto o vazamento, quando íamos saber que existia? A Chevron-Texaco sabia do “kick” e que não havia revestimento de cimento na coluna senão bem na superfície. Sabia que tinha subido petróleo e ficou na moita, torcendo para ele não permear a camada superior do solo.

Mas eu concordo que não temos fiscalização, porque a ANP é valente com a Petrobras e ronrona quando se trata de outras petroleiras. Nem sempre por má-fé, mas também por saber que as multinacionais têm aqueles privilégios “Daniel Dantas”: nada de algemas, por favor.

Mas sabe qual é a maior fiscalização possível? É a imprensa. Você viu que, depois que ela entrou no assunto, mal ou bem, tudo se esclareceu. Um desastre destes custa milhões de indenização e muitos milhões mais em imagem. Aliás, tem de ficar claro que Chevron é Texaco.

Como cidadão, eu estou feliz que o vazamento tenha parado. Como profissional, tenho vergonha de termos ficado parados por tanto tempo.

E pior, cedendo à manipulação política e, agora, caminhando no sentido errado. Nós temos segurança, e boa, na perfuração de petróleo. Muito maior, aliás, do que a de países desenvolvidos, como provou o vazamento do Golfo. E temos porque a Petrobras investe muito, em lugar de colocar o lucro “uber alles”, acima de tudo. Mas a nossa elite obturada reclama, porque as outras petroleiras dão mais lucro e, portanto, são mais eficientes. Ninguém associa isso ao fato de a Chevron-Texaco economizar no cimento e ter por lá um robô cegueta, que não viu nada, ao ponto de a Petrobras ter emprestado os seus, para socorrê-la.

Mas está aí um bom mote para a nossa imprensa “defensora da segurança”. Que tal fazer com que a empresa que tenha sido negligente como foi a Chevron-Texaco perder a concessão do campo? Taí uma boa campanha para a mídia, tão zelosa.

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Carta Maior – Maria Inês Nassif – Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo

Carta Maior – Maria Inês Nassif – Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo.

Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. Maria Inês Nassif A cultura de tentar ganhar no grito tem prevalecido sobre a boa educação e o senso de humanidade na política brasileira. E o alvo preferencial do “vale-tudo” é, em disparada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por algo mais do que uma mera coincidência, nunca antes na história desse país um senador havia ameaçado bater no presidente da República, na tribuna do Legislativo. Nunca se tratou tão desrespeitosamente um chefe de governo. Nunca questionou-se tanto o merecimento de um presidente – e Lula, além de eleito duas vezes pelo voto direto e secreto, foi o único a terminar o mandato com popularidade maior do que quando o iniciou. A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. A campanha que se espalhou nas redes sociais pelos adversários políticos de Lula, para que ele se trate no Sistema Único de Saúde (SUS), é de um mau gosto atroz. A jornalista que o culpou, no ar, pelo câncer que o vitimou, atribuindo a doença a uma “vida desregrada”, perdeu uma grande chance de ficar calada. Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer. Numa democracia, o opositor é chamado de adversário, não de inimigo (para quem não tem idade para se lembrar, na nossa ditadura militar os opositores eram “inimigos da pátria”). Essa forma de qualificar quem não pensa como você traz, implicitamente, a ideia de que a divergência e o embate político devem se limitar ao campo das ideias. Esta é a regra número um de etiqueta na política. A segunda regra é o respeito. Uma autoridade, principalmente se se tornou autoridade pelo voto, não é simplesmente uma pessoa física. Ela é representante da maioria dos eleitores de um país, e se deve respeito à maioria. Simples assim. Lula, mesmo sem mandato, também o merece. Desrespeitar um líder tão popular é zombar do discernimento dos cidadãos que o apoiam e o seguem. Discordar pode, sempre. A terceira regra de boas maneiras é tratar um homem público como homem público. Ele não é seu amigo nem o cara com quem se bate boca na mesa de um bar. Essa regra vale em dobro para os jornalistas: as fontes não são amigas, nem inimigas. São pessoas que estão cumprindo a sua parte num processo histórico e devem ser julgadas como tal. Não se pode fazer a cobertura política, ou uma análise política, como se fosse por uma questão pessoal. Jornalismo não deve ser uma questão pessoal. Jornalistas têm inclusive o compromisso com o relato da história para as gerações futuras. Quando se faz jornalismo com o fígado, o relato da história fica prejudicado. A quarta regra é a civilidade. As pessoas educadas não costumam atacar sequer um inimigo numa situação tão delicada de saúde. Isso depõe contra quem ataca. E é uma péssima lição para a sociedade. Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia. Os formadores de opinião tem a obrigação de disseminar esses valores. A quinta regra é não se deixar contaminar por sentimentos menores que estão entranhados na sociedade, como o preconceito. O julgamento sobre Lula, tanto de seus opositores políticos como da imprensa tradicional, sempre foi eivado de preconceito. É inconcebível para esses setores que um operário, sem curso universitário e criado na miséria, tenha ascendido a uma posição até então apenas ocupada pelas elites. A reação de alguns jornalistas brasileiros que cobriram, no dia 27 de setembro, a solenidade em que Lula recebeu o título “honoris causa” pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, é uma prova tão evidente disso que se torna desnecessário outro exemplo. No caso do jornalismo, existe uma sexta regra, que é a elegância. Faltou elegância para alguns dos meus colegas.